segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Porque de se pescar rio acima (up stream)?


Bem, na verdade são muitos os motivos:

Um é que a truta está parada no rio, de frente para a correnteza. É assim que ela respira e se alimenta com comodidade.

Depois é que nessa posição, chegamos por trás dela, único ponto cego absoluto na sua visão. Normalmente quando as trutas nos vêem, fogem.

Quando pescamos rio acima, deixamos à parte “pisada” do rio para trás. Ao nos deslocar-mos vadeando, levantamos sedimentos do leito do rio e isso atrapalha a alimentação e principalmente a respiração da truta. E ela por este incômodo, muda de lugar.  Então o melhor meio é caminhar sempre rio acima, pois assim só levantamos sedimentos ao tramo já pescado.


Manter a linha sob controle é muito mais fácil up stream. Quando pescamos em runs em outra posição técnica, a linha tende a ultrapassar a mosca, espantando a truta. É possível controlar a linha rio abaixo, mas não sempre por completo. Mesmo quando evitamos que a linha ultrapasse a mosca, ela estará fora da possibilidade de fisgada imediata, pois haverá muita linha a deriva (barriga). Rio acima é só ir recolhendo o excedente de linha, ao passo que a corrente nos trás a mesma.



Outra vantagem é poder escolher o campo de briga. Se pescarmos numa corredeira abaixo e fisgamos um peixe, mesmo que ele quisesse não conseguiria vencer a corredeira e correr em nossa direção. Sempre corre rio abaixo e nós ficamos sem poder refrear seu intento e nem trazê-lo as mãos. Descer a corredeira em sua direção, controlando linha, corrida do peixe, pedras e onde se pisa me parece muito arriscado.

Sim, existem diversas outras técnicas de pesca eficientes, mesmo para mosca seca, mas não tanto quanto a up stream. Mas mesmo assim, o deslocamento ideal é sempre rio acima.

Saudações mosqueiras e linhas sempre tensas!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Homenagem

Gostaria de prestar uma pequena homenagem a um grande amigo que, sem o qual, eu nem teria iniciado na pesca com mosca.
Falo de Daniel Varela, dono da infelizmente já extinta Artepesca, pioneira loja de pesca em Porto Alegre, que se localizava na Avenida São Pedro e onde se montavam varas, se fazia manutenção de carretilhas, se produzia acessórios essenciais para a prática de todas as modalidades de pesca.

Daniel, instruindo:


Sempre com um atendimento especial, onde rapidamente o cliente se tornava amigo e era convidado a participar das saídas de pesca, cursos, eventos, etc. Comprei meu primeiro equipamento de pesca com iscas artificiais e logo em seguida fui convidado a experimentar a pesca com mosca pelo Daniel, no Utopia II de propriedade do Senhor Márcio, onde os peixes pretendidos eram a truta e o black bass.
Com um material emprestado pelo próprio Daniel, capturei a primeira truta e que foi também o meu primeiro peixe na mosca, depois de alguma orientação deste meu amigo e mais importante instrutor de pesca com mosca que tive. E aí já era tarde e eu já estava “fisgado” por esta fascinante modalidade de pesca e meu material de bait casting ainda novo, ficou encostado.


Fica nessa singela homenagem também uma tentativa de instigá-lo a fazermos uma pescaria à mosca juntos novamente, porque me faz muita falta o convívio com esse grande e estimado amigo.
Um grande abraço meu irmão!
Saudações mosqueiras e linhas sempre tensas!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Quando o Erro Calha no Acerto...

Fui pescar semana passada no meu pesqueiro quase caseiro. Cedo, bem cedo. A hora dos grandes. Chego no rio, armo a vara, ponho a carretilha e... cadê a caixinha principal das moscas? Ficou na bancada de atado... que coisa.
Na caixa que me restou, de pequeninos streamers e ninfas maiores, o mais próximo das moscas que uso é uma imitação de girino, mas que é grande para o lugar, perto das moscas mais usuais. Bom, é o que tem.
Primeiro arremesso e entra um Tambicú (branca, bocarra, etc...) muito grande. Quase tive que ceder linha a ele, numa puxada boa... Mediu cerca de 25cm. 
Logo na seguida, um grande Lambari, cerca de 15 cm. Logo em seguida outro. E pra minha surpresa, outro Tambicú, porém menor. Cerca de 20 cm. 
E como sempre costuma ser, maior tempo entre novas capturas, com espécimes menores com o correr das horas, até não haver mais capturas ou ataques, já perto das 9 horas. Mas é sempre assim, essa é a hora das ninfas bem pequenas, para Lambaris também bem pequenos. Mas estas moscas ficaram na bancada.
Mas para comprovar o comportamento, dois dias depois fui novamente no mesmo local, com a mesma isca. Dito e feito. Mas nesse dia levei a máquina e a caixinha de iscas menores. Seguem as fotos:












Então, mais uma descoberta de iscas e tamanho de peixe. Valeu eu ter deixado a caixinha principal em casa.
Saudações mosqueiras e linhas sempre tensas!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

P.S.: Tippet

Escolha do tippet, libragem, espessura, peso do peixe, tração, resistência ao atrito e demais derivações

 À princípio não há o que inventar, existe uma tabela de relação entre tippet e tamanho de anzol:

Relação de bitola e tamanho de anzol:


0X  - 0,28mm – 2 – 1 – 1/0
1X – 0,25mm – 4 – 6 – 8
2X – 0,23mm – 6 – 8 – 10
3X – 0,20mm – 10 – 12 – 14
4X – 0,18mm – 12 – 14 -16
5X – 0,15mm – 14 – 16 – 18
6X – 0,13mm – 16 – 18 – 20 – 22
7X – 0,10mm – 18 – 20 – 22 – 24
8X – 0,08mm – 22 – 24 – 26 – 28


 Vou falar então sobre as características desejáveis pelo pescador para cada situação de pesca.
Quando há a possibilidade de se fisgar um peixe maior que as expectativas médias conhecidas do local, se usa o artifício de colocar um tippet mais fino que sirva de “fusível” caso entre algum peixão. Isto protegerá nossa vara, rompendo o tippet antes de romper nossa caña. Devemos ter em conta que a capacidade de nossa linha tippet é estabelecida sob testes de pesos específicos, ou melhor, sob dinamômetros que marcam o limite de rompimento. Mas como todos devem saber, não levantaremos um peixe apenas pelo líder ou tippet, ou seja, não erguemos um peso específico associado ao tippet. O correto é levantar o peixe pelo corpo com as mãos, ou com um net, ou alicate, enfim, tiramos o peixe da água de preferência sem sequer reter o líder pela mão, pois uma cabeçada mais forte do peixe o romperá. Portanto, estimamos para a escolha do tippet a força que um peixe de X tamanho e/ou vigor, faz na água durante a briga e não seu peso específico. Exemplo: Podemos ter um peixe menor que exerça mais força que um maior. Ou uma espécie de média maior de peso que se entrega mais fácil que outra menor, mais peleadora. Ou seja, não é ciência exata.
Outro fato a se considerar é que uma linha de fluorocarbono de maior espessura é mais frágil que um monofilamento de menor espessura. O fluorocarbono tem por sua característica principal, que justifica seu uso, a resistência maior a abrasão. Porém ele é menos resistente a tração. Devemos então atentar a escolha certa do material e suas características, para o emprego no uso que queremos.
Outro detalhe é a qualidade do material que usamos para líder e tippet. Linhas baratas possuem índice de erros e irregularidades maior e em menor quantidade de linha. Ou seja, se pudéssemos aferir toda a linha de um carretel com um micrômetro, veríamos que a bitola varia. E varia mais e com diferenças maiores nas linhas de pior qualidade. Vale então a máxima: compre o que de melhor seu bolso suportar.
Para terminar, mais alguns detalhes:
Verifique o vencimento da linha e as condições que tu a guardaste durante o tempo. Se ela foi exposta ao sol e não tem proteção UV. Se algum material como solventes, graxas, óleos ou produtos químicos não estiveram em contato com a linha e a danificou. Dedique-se a aprender a fazer os nós corretamente, não só as voltas e passes, mas o aperto e a lubrificação. Monofilamentos perdem sua integridade com o calor de um nó apertado muito rápido e com atrito de um nó sem lubrificação.
Espero ter ajudado um pouco os amigos pescadores.
Saudações mosqueiras e linhas sempre tensas!

Líder... O detalhe mais simples, mas de suma importância!

O líder tem por função unir a mosca à linha de fly. Ele deve ter um afunilamento proporcional e cônico, da parte mais grossa (butt) até a parte mais fina (tippet) que unirá a mosca ao líder. No texto seguinte irei tratar do tippet especificadamente, seus materiais e características. E essas também se aplicarão ao líder, pois são compostos por partes de monofilamento de nylon, salvo alguns especiais.
Aqui tratarei de passar apenas receitas de líderes e suas características.
Existem talvez centenas de receitas e cada uma pode ser adaptada pelo pescador ao seu gosto e aplicação desejada. Parta então de receitas estabelecidas há décadas e depois, com a experiência, mude conforme suas necessidades.
Nenhuma receita colocada aqui foi criada por mim, apenas coletadas por anos de garimpagem de material didático para a pesca com mosca.

RECEITAS DE LÍDERES



Truta

1,68m – 0,45mm
0,25m – 0,40mm
0,25m – 0,35mm
0,25m – 0,30mm
0,25m – 0,25mm

Tippet - 0,30m – 0,20mm - Wolly Booger e iscas de igual proporção.

Tippet - 0,20m – 0,16mm – Ninfas
Ou
Tippet - 0,20m – 0,14mm – Secas

Total: Entre 2,98m e 3,18m aproximadamente.

Obs.: Pode se considerar o tippet a partir do 0,20mm e dependendo da necessidade se opta por aumentar a parte 0,25mm para peixes e/ou moscas maiores, assim como trocar ou acrescentar o 0,14mm por 0,10mm para peixes e/ou moscas menores. Com alguma experiência em pesca, o pescador altera tamanho e proporções de líderes conforme seu gosto e necessidade.
As seções podem ser unidas pelo nó de sangue (blood knot):
A alça pode ser feita com o loop perfeito "perfection loop":


Próximo capítulo: líderes para outros peixes e aplicações.

Saudações mosqueiras e linhas sempre tensas!


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Relato I

Fim de semana escolhido para subir a serra gaúcha e ir atrás dos black bass. Sábado, que caprichosamente, amanheceu quente e ensolarado em época de frio. O dia prometia.

Chegamos cedo ao lago, armamos o material e seguimos para o açude. Curiosamente escolhemos o lado esquerdo do lago para pescarmos, todos nós. A manhã estava fraca em capturas, mas com alguns blacks capturados por cada um, espaçadamente colocados ao redor do açude, nesse lado esquerdo. Quase todas capturas em streamers à meia-água. 
Logo era hora do almoço e subimos em direção a caminhonete, ao lado da qual foi armada uma lona como cobertura. Assentamo-nos e comemos calmamente nossos deliciosos sanduíches. Levantei, peguei mais um e fiquei em pé, olhando para o açude. O bom pescador a mosca é antes de tudo um observador. Em toda circunstância. Então me espantei ao ver grande atividade na superfície, justamente em um horário de sol a pino, muito calor. Era cerca de 13h30min. Isso no lado direito do lago, o oposto do escolhido pela manhã. E eu já excitado para verificar de perto tal atividade: 


Terminei meu lanche, revisei meu material e o pessoal desceu antes de mim, mas novamente para o lado esquerdo. Talvez uma escolha instintiva e mais cômoda, pois o lado esquerdo era mais protegido do vento por pequenas coxilhas. E eu fui para o lado direito.
Viam-se então círculos concêntricos, típicos de tomada de insetos na superfície pelo peixe. Isso logo após uma vegetação que se estendia perpendicularmente a margem. Vinha a região de atividade de peixes e logo depois mais uma barra de vegetação e após esta a atividade de caça dos peixes se repetia. Isso tudo se estendia até uma cerca de arame que entrava na água, cerca de uns 50 metros mais adiante, sempre à direita:


Estabeleci então uma estratégia: usaria uma isca de superfície, no caso uma rã amarela, arremessaria após os círculos e a faria passar por cima da zona de ataque. Era fatal. Cada círculo, um bass capturado. Nenhum descomunal, aliás, como pela manhã, todos os bass eram pequenos e magros. No máximo médios, mas magros, todos: 


Quando passava a rã e não havia ataques, passava um streamer (matuka) preta e verde limão e lograva êxito. Assim fui indo até a tal cerca e voltando, arremessando depois da primeira e logo depois da segunda barra de vegetação. Era tanta ação que comecei a contar as capturas, isso já depois de muitos peixes capturados, e foram 84 bass os contados. Até pensei em trocar meu material #6 por um #4 e pescar com mosca seca, mas como era o primeiro dia de pesca e eu estava com fome de peixe, resolvi não perder tempo. Já no final da tarde o pessoal se achegou para a caminhonete e eu resolvi trocar meu #6 por um outro #6, porém mais rápido, pois eu estava pescando com uma vara mais lenta, o que exigia mais do meu braço que já estava doendo. Então lhes falei das tantas capturas e eles se juntaram a mim e capturaram muitos bass até anoitecer. Como eu estava sozinho, tenho poucas fotos deste local e que só foram feitas quando o pessoal se juntou a mim, no final da tarde.
Eu já havia parado de contar, mas contando com os peixes da manhã e os que peguei ainda depois do pessoal chegar, com certeza foram mais de cem.
As poucas fotos mostram bem a grande atividade de mayflies voando ao nosso redor:



Melhor pescaria de bass que já fiz. Até hoje.
Saudações mosqueiras e linhas sempre tensas!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Um pouco de arte...

Todos nós que somos pescadores a mosca e esportivos admiramos a fotografia. Nossos troféus estão em molduras (parece que falo como o personagem que quero lhes apresentar), digo, em nossos computadores, descansos de tela e lotam nossos hds. 
Gostaria de lhes apresentar (e para os que já o conhecem, relembra-lo) Luis Marden. Essencialmente e originalmente fotógrafo. Excelente fotógrafo. Mas dizer isso, perto de quem ele foi e do que ele fez, é dizer quase nada.



Explorador, inovador, escritor, aviador, mergulhador, artesão connoisseur, lingüista, botânico, lexicógrafo, bibliófilo, repórter, contador de casos...
Autodidata de conhecimento enciclopédico, Luis Marden expandiu sua educação ao longo dos 64 anos de carreira na National Geographic. Fotógrafo e escritor talentoso, ele mudou a maneira como a revista abordava o mundo.
Ele mergulhou com Jacques Cousteau e foi pioneiro em fotos submarinas coloridas em 35mm. Descobriu espécie de orquídea brasileira que leva seu nome em sua homenagem, assim como leva também seu nome uma espécie de pulga marinha, um minúsculo crustáceo. Chega? Mas tem mais...
Qual de nós não ficou maravilhado, quase hipnotizado com uma foto de capa da National Geographic que retratava uma afegã refugiada de guerra? Saiu uma edição especial da NG só sobre esta foto. Aquele colorido dos olhos, a textura do véu e a expressão do seu rosto só se materializaram em foto graças à película Kodachrome, apresentado a chefia da NG em 1936 por ele, já vendo o futuro da foto colorida.
Indico a leitura completa da edição de Novembro de 2000 da National Geographic com uma maravilhosa reportagem sobre esse fabuloso personagem, com fotos e aventuras. Mas quero lhes falar da “parte que nos toca”:
Luis Marden, além de tudo isso, era pescador. E pescador a mosca, de trutas sim, mas de tantas outras espécies também. Em todas as suas viagens arrumava um tempo e saia a pescar em qualquer poça de água que encontrasse.  Sua casa tinha nome, “Salvelinus Fontinalis”, “o mais belo de todos os peixes que nadam” disse ele, e eu assino embaixo.
Mas tem mais...
Seu colega editor Charles McCarry perguntou a um monge budista, no Japão, sobre o bambu cultivado em seu jardim, o monge achou estranho que McCarry não houvesse economizado a viagem perguntando aquilo ao seu colega Luis Marden. “Aqui no Japão chamamos Marden-san de Doutor Bambu”, comentou. Sim, ele cultivava bambu porque era rod maker e de varas de bambu. Isso além de comprar as melhores varas de pesca de bambu que encontrava. Na última contagem estava com mais de 50 varas de bambu cortadas, prontas para serem montadas.


Luis Marden era um artista. Um visionário que amava o que era bom e se aprofundava em tudo o que fazia.
Esperam que tenham gostado e que busquem mais sobre este pioneiro.
Saudações mosqueiras e linhas sempre tensas!

P.S.: Este pequeno texto foi inspirado ao olhar um vídeo de um pescador brasileiro na internet dizendo que havia descoberto as Ilhas Fiji para a pesca esportiva e lembrei que Marden já havia estado, morado e estudado as Ilhas Fiji, seus habitantes e costumes e, claro, pescado.